Marina Alves chega ao hospital às 6h45, quinze minutos antes do plantão. Troca de roupa, café requentado na copa, checagem do quadro de leitos. Às 7h em ponto, está na UTI de um hospital público na zona sul de São Paulo, onde trabalha há onze anos.

Ela tem 38 anos, é enfermeira intensivista e mãe de um menino de seis. A conversa com o Relato aconteceu numa tarde de folga, em um café perto de casa. Marina pediu para não citar o nome do hospital — comum entre profissionais que temem retaliação — mas falou abertamente sobre rotina, medo e cansaço.

Um plantão que não é rotina de filme

Relato: Como é um plantão de 12 horas na prática?

Marina Alves: Começo checando pacientes críticos: ventilação, sedação, sinais vitais. UTI não perdoa distração. Almoço muitas vezes é sanduíche em pé. À tarde, entram admissões, visitas de família — restritas, mas emocionantes — e papelada que nunca acaba.

O plantão noturno é outro mundo. Silêncio relativo, alarmes que disparam, decisões rápidas com médico plantonista. Durmo mal nos dias seguintes. Meu corpo aprendeu a viver em ciclos que não são os da maioria das pessoas.

O que ficou de 2020

Marina não gosta de usar a palavra "herói". "Herói não chora no banheiro do hospital", ela diz. Durante a pandemia, perdeu três colegas de equipe — dois por Covid, um por suicídio em 2021. Guarda os nomes num caderno que não mostra para ninguém.

"A gente aprendeu a fazer mais com menos. O problema é que 'menos' virou normal depois que a pandemia 'acabou'."

Os leitos de Covid fecharam, mas a pressão não. Hoje a UTI atende trauma, pós-operatório, sepse — volume alto, equipe enxuta. Marina calcula que trabalha com 30% menos enfermeiros do que o recomendado para o número de leitos.

Falta de gente e excesso de burocracia

Relato: Por que é difícil contratar?

Marina: Salário, condições, desgaste. Muita gente formou, passou um período na linha de frente e foi para clínica privada, telemedicina, outra área. Quem fica é quem aguenta — e isso não é elogio, é constatação triste.

A burocracia também pesa. Sistema que não conversa, falta de material que demora para chegar, relatório que poderia ser mais simples. Tempo que poderia ser de cuidado vira tela de computador.

Composição editorial sobre saúde

Cuidar de quem cuida

Marina faz terapia desde 2021, recomendada por uma colega. "Demorei para aceitar. Achava que precisava ser forte." Hoje diz que sem terapia não continuaria na UTI.

O hospital oferece programa de apoio psicológico, mas com vagas limitadas e horários que nem sempre batem com escala de plantão. Ela e outras enfermeiras criaram um grupo de WhatsApp para desabafo — sem substituir ajuda profissional, mas útil nas noites difíceis.

O que ela quer que mude

Marina lista três coisas: mais contratação com condições dignas, menos burocracia nos processos clínicos, e reconhecimento que vá além de campanha em setembro.

Relato: A senhora indicaria a profissão para o filho?

Marina: Indicaria o cuidado, não necessariamente a UTI pública neste momento. Quero que ele veja o que faço com orgulho — salvar vidas é real. Mas também quero que ele cresça num sistema que não queime quem trabalha nele.

Antes de ir embora, Marina volta ao hospital na manhã seguinte. O relógio marca 6h50. Mais um plantão. Mais um dia em que a rotina dela mantém outras pessoas respirando — um fato que merece ser lembrado depois que as manchetes de pandemia se foram.