A Escola Municipal Boa Vista fica numa rua estreita do bairro de Afogados, no Recife. De fora, parece igual a centenas de outras unidades públicas da cidade: muro baixo, pátio de cimento, salas com ventiladores barulhentos. Mas quem entra numa manhã de terça-feira percebe algo diferente — mães na portaria conversando com a coordenação, um quadro na parede com as atividades do mês escritas à mão, crianças que chamam a diretora pelo primeiro nome.
Helena Moraes, 52 anos, é a pessoa por trás dessa mudança. Professora há quase três décadas, assumiu a coordenação da escola em 2016 num momento difícil: evasão alta, conflito com famílias, sala de professores desmotivada. Dez anos depois, a unidade virou referência na regional e modelo citado em formações da Secretaria de Educação.
O começo não foi um plano bonito
Relato: Quando a senhora chegou, o que encontrou?
Helena Moraes: Encontrei uma escola que funcionava no automático. As crianças vinham, as professoras davam aula, as famílias buscavam. Mas não havia diálogo. Reunião de pais era sinônimo de bronca. Eu mesma, nos primeiros meses, ouvi de tudo: que ia acabar com a disciplina, que estava inventando moda, que escola é para estudar e não para festa.
O ponto de virada foi uma conversa com uma avó. Ela disse: "Minha neta só vem porque não tem onde deixar. Quando chega em casa, não tem quem ajude com lição." Aquilo me pegou. Percebi que estávamos falando de educação sem olhar para a vida das pessoas ao redor.
"Escola não é ilha. Ou a gente se conecta com o bairro, ou vira só mais um prédio que as crianças atravessam por obrigação."
O conselho que ainda funciona
Em 2017, Helena propôs um conselho de famílias — não o conselho formal exigido por lei, mas um grupo aberto que se reúne toda primeira quarta-feira do mês, à noite. Começaram seis pessoas. Hoje são entre vinte e trinta, dependendo da pauta.
Relato: O que o conselho decide de fato?
Helena: Tudo que mexe no cotidiano. Cardápio da merenda — tivemos uma discussão longa sobre reduzir açúcar sem perder o que as crianças realmente comem. Horário de portão. Uso do pátio para feira de troca de livros. Uma vez decidimos adiar prova porque tinha chuva forte e metade das crianças chegou encharcada, sem condição de prestar atenção.
Não é democracia pura — eu explico o que a rede permite e o que não permite. Mas dentro disso, há espaço real para escuta.
Sábados abertos
Outra mudança foi abrir a escola aos sábados, das 8h às 12h. Não é aula obrigatória — é espaço de reforço, oficina de leitura, às vezes cinema com pipoca feita pelas mães. Professores participam por escala voluntária, com compensação em banco de horas negociado com a gestão.
Seu Raimundo, 71 anos, avô de dois alunos, virou figura fixa. Ele conserta cadeiras, pinta muro, ensina xadrez no corredor. "Aqui eu não sou só o vô que busca criança", ele nos contou. "Sou parte disso."
Desafios que não sumiram
Helena é a primeira a dizer que o modelo não resolve tudo. Falta de professor concursado, salário atrasado da merenda terceirizada, violência no entorno — tudo isso continua. Em 2024, uma briga fora do portão invadiu o pátio e abalou a comunidade por semanas.
Relato: A senhora pensa em sair?
Helena: Penso em descansar, não em abandonar. Tenho dois anos até a aposentadoria. Quero deixar processos que não dependam de mim — o conselho formalizado, o manual de boas-vindas para famílias novas, a parceria com a associação de moradores. Medo maior é a escola voltar a fechar em si mesma depois que eu for.
O que fica
Os números ajudam a contar parte da história: evasão caiu de 14% para 4% entre 2016 e 2025; participação em reuniões subiu cinco vezes; nota no Ideb melhorou sem "aulão" de véspera — Helena insiste que o resultado veio do vínculo, não de pressão por prova.
Quando perguntamos o que ela diria a uma coordenadora começando hoje, a resposta veio rápida: "Pare de preparar discurso e comece a ouvir. A primeira reunião, não fale quase nada. Deixe as famílias falarem. Você vai aprender mais em uma noite do que em um curso de gestão."
Saímos da Boa Vista com o barulho das crianças no intervalo e o cheiro de café na sala dos professores. Era uma cena comum — e, ao mesmo tempo, rara o suficiente para merecer esta conversa.