A Biblioteca Comunitária Raízes ocupa duas salas num prédio antigo da região leste de Belo Horizonte. Até 2018, funcionava poucas horas por semana, com acervo desatualizado e cadeiras quebradas. Hoje abre de terça a sábado, recebe cerca de duzentas visitas mensais e virou referência para outras iniciativas de bairro.
Cláudia Ribeiro, 45 anos, bibliotecária formada pela UFMG, assumiu a coordenação voluntária quando a associação de moradores ameaçou fechar o espaço por falta de gestão.
De sala vazia a casa de todos
Relato: O que a senhora encontrou quando chegou?
Cláudia Ribeiro: Livros com poeira, computador que não ligava, e a sensação de que o bairro tinha desistido do lugar. A primeira coisa foi abrir as janelas e convidar as pessoas para uma reunião sem pauta. Só ouvir.
Descobri que muita gente queria um local seguro para crianças depois da escola. Outros pediam ajuda com currículo. Idosos queriam roda de conversa. A biblioteca virou um pouco de cada coisa — sem deixar de ser biblioteca.
Oficinas que nascem do bairro
Hoje há oficina de leitura para crianças às quartas, grupo de escrita para adolescentes às sextas e roda de memória oral aos sábados. Cláudia não impõe temas: "Quem traz a pauta é quem está aqui."
"Livro é porta. O que importa é a pessoa sentir que pode entrar."
Rede de voluntários
O espaço funciona com três voluntários fixos e uma rede de dez pessoas que ajudam em eventos. Doações de livros chegam por mês; Cláudia faz triagem e troca com outras bibliotecas comunitárias da cidade.
Relato: Como se mantém financeiramente?
Cláudia: Associação de moradores, bazar semestral, edital municipal pequeno em 2024. Não pagamos aluguel — o prédio é da associação. Sobrevivemos no apertado, mas sobrevivemos.
Próximos passos
Cláudia sonha com ampliar o acervo infantil e criar um canto de estudo com tomada e internet estável. "Muita criança faz lição no chão de casa. Aqui poderia ser diferente."
Quando saímos, duas meninas devolviam livros na recepção improvisada. Cláudia perguntou se tinham gostado. A resposta — "Posso pegar outro?" — resume o que o espaço se tornou.