Ricardo Mendes, 41 anos, toca violão num canto fixo do Pelourinho, centro histórico de Salvador. Turistas param, moradores cumprimentam, guias o apontam como "parte do clima". Ele não nasceu famoso — construiu presença com quinze anos de esquina.
Como começou
Relato: Qual foi o primeiro dia?
Ricardo Mendes: 2011. Tinha vinte e seis anos, desempregado, violão velho. Sentei no Largo do Pelourinho com vergonha. Ganhei doze reais. Voltei no dia seguinte.
Aprendeu sozinho, ouvindo MPB e samba no rádio. Nunca fez conservatório. "Meu professor foi o porto, os velhos que tocavam na praça."
O Pelourinho como palco
O centro histórico mudou muito em quinze anos. Mais turismo, mais fiscalização, mais concorrência por espaço. Ricardo conseguiu autorização da prefeitura para o ponto fixo — processo burocrático que levou meses.
"Rua não é palco de shopping. É vida. Quem toca na rua aprende a respeitar quem passa."
Turismo e renda
Antes da pandemia, Ricardo ganhava bem nos meses de alta temporada. Depois de 2020, a renda oscila mais. Grava vídeos para redes sociais com ajuda de um sobrinho, mas prefere o ao vivo.
Relato: Já pensou em tocar em casa de show?
Ricardo: Convite já teve, mas o horário não batia com minha rotina de rua. Meu público está aqui — quem passa sem planejar ouvir e para.
O que toca
Repertório mistura Vinícius, Djavan, autorais e versões de Dorival Caymmi. Evita repetir demais: "Turista que volta no dia seguinte merece surpresa."
Quando encerramos a entrevista, Ricardo afinou o violão para o próximo bloco. O som se espalhou pelo largo — mais uma tarde comum num lugar que não seria o mesmo sem ele.