O caminho de terra que leva à casa de João Cerqueira some na poeira vermelha do Cerrado. São vinte minutos de estrada a partir de Pirenópolis, em Goiás, entre cerrado ralo e pasto queimado. No quintal, há um forno de tijolo, pilhas de argila secando ao sol e panelas empilhadas como torres pequenas.
João tem 64 anos, mãos calejadas e riso fácil. É um dos poucos ceramistas da região que ainda molda fogões e panelas com técnicas que aprendeu com Dona Izabel, sua avó, nascida em 1920.
Um ofício que não aparece em catálogo
Relato: Como a senhora descreveria o que o senhor faz?
João Cerqueira: Eu faço utensílio de cozinha que aguenta fogo direto. Não é enfeite. Minha avó dizia: panela boa é a que não racha no primeiro feijão. A gente busca argila no córrego, peneira, amassa com os pés — sim, ainda com os pés — e deixa descansar. Depois vem o torno manual, a secagem lenta e a queima.
Não uso modelo de loja. Cada peça tem espessura diferente porque a argila muda conforme a estação. Chuva forte, argila mais mole. Seca longa, mais rachadura se tiver pressa.
Lições da avó
João começou aos sete anos, observando Dona Izabel no quintal. "Ela não dava aula. Mandava eu segurar a borda da panela enquanto ela alisava. Um dia soltou: agora você." Tinha doze anos quando fez a primeira peça vendida — uma panela pequena para vizinha.
"Ofício de avó não é só técnica. É respeito pelo tempo. Argila apressada vira lixo."
Quando a avó morreu, em 1998, João quase desistiu. "Pensei que ninguém mais ia querer panela de barro com panela elétrica na loja." Foi a esposa, Maria, quem insistiu: "Faz uma feira. Se não vender, a gente pensa em outra coisa." Vendeu tudo em um sábado em Pirenópolis.
Argila e fogo
A queima acontece no forno do quintal, alimentado com lenha de cerrado. João controla a temperatura olhando a cor do tijolo e o som da lenha — não usa termômetro digital. O processo leva dez horas, às vezes mais.
Relato: Já perdeu lote inteiro?
João: Já, e dói no bolso e na alma. Em 2019, chuva inesperada no meio da queima. Trincou quinze peças. Chorei, sim. Maria brincou que cerâmico que não chora é turista. No dia seguinte, comecei de novo.
Feiras e encomendas
Hoje João vende em feiras de Pirenópolis, Goiânia e, às vezes, em Brasília. Tem lista de espera para fogões de três bocas — peça que leva três semanas entre moldagem e queima. Preço não compete com industrial, e ele não quer competir.
"Quem compra de mim sabe o que está levando. Vai usar dez, quinze anos. Quando racha, eu conserto ou ensino a consertar."
Netos e ofício
O neto mais velho, Pedro, 19, está aprendendo. Faz faculdade de engenharia ambiental em Goiânia e passa fins de semana no quintal. "Ele fala de sustentabilidade e eu falo de argila. No fim, é a mesma conversa", diz João.
Pedro criou um Instagram para o avô — com ajuda de uma prima — mas João pediu que não virasse "show de panela". Quer clientes que conheçam o processo, não só a foto bonita.
Antes de nos despedirmos, João oferece café coado em panela de barro. O gosto é mais encorpado, ele garante. Talvez seja sugestão. Talvez seja a argila. De qualquer forma, é difícil discordar de quem carrega no ofício quase um século de história familiar.