Seu Antônio Ferreira, 58 anos, pesca há quarenta e dois anos nas águas de Itacaré, no sul da Bahia. Conhece cada recife, cada correnteza, cada estação do atum. E diz que o mar que navega hoje não é o mesmo que aprendeu com o pai.

O mar de antes

Relato: Como era a pesca quando o senhor começou?

Seu Antônio: Previsível no improviso, se me entende. A gente sabia que certos peixes vinham em certos meses. Chuva forte na serra significava mar revolto em dois dias. Hoje o calendário anda confuso.

Mudanças que o senhor vê

Água mais quente, segundo ele, afastou algumas espécies. Tempestades mais intensas danificaram barcos e redes. A areia da praia onde os pescadores guardam equipamento recuou metros em uma década.

"Cientista explica com gráfico. Eu explico com rede vazia e barriga apertada. Os dois estão falando da mesma coisa."

Pesca hoje

Seu Antônio diversificou: turismo de pesca leve, venda direta para restaurantes locais, participação em cooperativa. "Não abandonei o mar. Aprendi a conversar com ele de outro jeito."

Relato: Os filhos seguem na pesca?

Seu Antônio: Um sim, dois não. Respeito a escolha. Mas fico triste quando vejo jovem que não conhece a maré. Perdemos memória junto com peixe.

Comunidade e resistência

A Colônia de Pescadores de Itacaré organiza mutirões de limpeza de praia e pressiona por licenciamento ambiental em obras costeiras. Seu Antônio é um dos mais antigos na diretoria.

Conversamos na beira do cais, cheiro de sal no ar. Quando o sol baixou, ele foi preparar a rede para o dia seguinte — rotina que continua, mesmo com mar diferente.